Pequeno Reino – Artigo 4

A HISTÓRIA DO PEQUENO REINO – Texto complementar 4

 ESCOLA E DEMOCRACIA

Este artigo repete alguns dos argumentos apresentados na DISCUSSÃO 17, sobre as melhores formas de educar para a democracia.

A escola é uma das instituições que, historicamente, está associada a processos de democratização em todo o planeta. Países que se democratizam são países que aumentam o acesso à educação – em todos os níveis – para todas as camadas da população.

Mas, na verdade, as escolas podem e devem ter um papel muito mais ativo na formação para a democracia. Isso precisa acontecer no mundo inteiro, especialmente em países como o Brasil, que tem uma história marcada por injustiças e barbaridades como a escravidão e por governos autoritários que se julgam no direito até mesmo de prender e assassinar pessoas que pensam as coisas de forma diferente da sua.

É normal que nos esqueçamos, em períodos mais democráticos, de que o nosso país foi o último do planeta a abolir a escravidão e que vivemos longos e tenebrosos períodos de ditadura, o que aliás ajuda a explicar a excessiva passividade da imensa maioria de nós, quando se trata de exercer a cidadania e o direito de protestar contra a falta de ética de políticos e de governantes. Nossa democracia é jovem e precisa ser aprimorada, se quisermos que cresça e se torne cada vez mais robusta e “entranhada” na mentalidade de nossos(as) compatriotas de todas as idades.

Por isso é que, nessa discussão, eu acho que a primeira grande questão que a escola deve se fazer é:

SOMOS OU NÃO SOMOS A FAVOR DA DEMOCRACIA?

Em 2010 (ano de publicação deste artigo), sabemos que os governos de muitos países responderiam “não” a essa pergunta. O Irã e a China são dois exemplos pra lá de significativos disso. Felizmente, atualmente, em nosso país, governos e escolas respondem com um grande e sonoro “sim, queremos ensinar para a democracia”.

O que nos leva a próxima questão:

ESTAMOS ENSINANDO DEMOCRACIA BEM?

Formar para a democracia envolve bem mais do que simplesmente “dar aulas” sobre a importância da democracia, sua história, sobre o combate muitas vezes violento e trágico por ela.

Em 1933, quando o Brasil ainda não havia realizado suas primeiras eleições que tiveram uma participação razoável da população e foram consideradas limpas (o que aconteceu em 1945), Anísio Teixeira (1900 – 1971), um de nossos maiores educadores, publicava a primeira edição do livro Educação Progressiva: uma Introdução à Filosofia da Educação, com críticas à escola que merecem ser meditadas até hoje, e que vão ao centro do debate que propomos.

A principal crítica de Anísio Teixeira era contra a excessiva passividade imposta a alunos e alunas, nas aulas. Isso ensinava uma série de hábitos incompatíveis com a formação para a democracia. Veja o que ele dizia sobre os efeitos negativos de uma escola que “dá aulas” o tempo todo, utilizando o exemplo das aulas de matemática:

Ora, a escola tradicional nunca percebeu que, em uma lição de aritmética, podia estar ensinando as crianças a não terem coragem, a não serem sociais, a alimentarem complexos de inferioridade, etc., de que iriam sofrer por toda a vida.

Então vemos que a velha escola, onde as crianças iam para fazer aquilo que não queriam, com uma disciplina semi-militar, está profundamente inadequada não só para a sociedade presente, como para a própria concepção moderna da aprendizagem.[1]

A pergunta que podemos nos fazer é: será que ainda estamos na “velha escola” a que se referia Anísio Teixeira em 1933? Será que, em pleno século XXI, estamos fazendo algo mais do que “dar aulas” – quase o tempo todo, todos os anos, dias e horas – em nossas escolas?

O que nos leva a uma nova questão:

COMO ENSINAR DEMOCRACIA?

Já que dar aulas sobre democracia está longe de ser suficiente para ensiná-la, o que podemos fazer? A resposta de pedagogos como Anísio Teixeira e de psicólogos como Jean Piaget (1896-1980) a essa pergunta é de uma simplicidade espantosa:

A melhor maneira de aprender democracia é praticando democracia!

Aliás, nada mais sensato, não é mesmo? Vejamos algumas citações de Piaget:

Unicamente a vida social entre os próprios alunos, isto é, um auto-governo levado tão longe quanto possível e paralelo ao trabalho intelectual em comum, poderá levar a este duplo desenvolvimento de personalidades donas de si mesmas  e de seu respeito mútuo.[2]

Auto-governo? Uma escola governada por alunos e alunas? É isso mesmo que Piaget, admirador confesso de pedagogos revolucionários como Freinet e Makarenko, está dizendo:

O problema é saber o que vai preparar melhor a criança para seu futuro papel de cidadão. Será o hábito da disciplina exterior adquirido sob a influência do respeito unilateral e da coerção adulta, ou será o hábito da disciplina interior, do respeito mútuo e do auto-governo? [3]

A criança, quando não está como na escola condenada à guerra contra a autoridade, é capaz de disciplina e de vida democrática.[4]

Sempre me divirto relendo essas declarações de Piaget, que tantas pessoas e escolas que se pretendem “construtivistas” nem ao menos discutem.

Aliás, acho a visão de Piaget meio ingênua e muito radical. As experiências de escolas auto governadas são fascinantes, mas raras e difíceis de reproduzir em grande escala. Mas, por outro lado, também acho que essas afirmações apontam caminhos super fáceis de implementar para escolas que buscam um dia a dia cada vez mais democrático:

Se queremos formar para a democracia, devemos aproveitar, sempre que possível, inúmeras chances que aparecem para favorecer debates, trocas de pontos de vista, elaboração coletiva de regras, etc.

O mais importante, na perspectiva de uma escola que quer formar para a democracia,  é pensar em situações que possam contribuir para desenvolver a competência de interagir dialogicamente com os outros.

Isso pode acontecer tanto dentro das salas de aula –  na medida em que aumentamos as atividades realizadas em duplas e em pequenos grupos, em que usamos jogos, dramatizações, debates e julgamentos simulados, discussões sobre regras de convivência, etc. – quanto fora dela – através do envolvimentos em campanhas de caráter cívico (como a luta por uma melhor sinalização do trânsito ou o apoio a uma instituição carente próxima à escola) e do incentivo à criação de grupos de interesse extra escolares (como grêmios de estudantes e clubes de alunos interessados em astronomia, em xadrez, etc. ).

Idéias como essa, incorporadas ao cotidiano de nossas escolas, ajudam a formar pessoas mais bem preparadas para a cidadania em uma democracia, ou seja, pessoas que sabem dialogar e tomar decisões em conjunto, sem recorrer ao autoritarismo.

E de quebra, como veremos em nosso último item, ajudam também a formar pessoas mais inteligentes:

EDUCAÇÃO PARA A DEMOCRACIA E DESENVOLVIMENTO INTELECTUAL

Ensinar para a democracia, de formas mais dialógica e ativa, pode contribuir também para o desenvolvimento intelectual de nossos(as) estudantes.

Em 1966, um especialista em Didática, inspirado por Piaget, afirmava essa idéia com clareza:

Podemos dizer que a criança que troca idéias com seus semelhantes e com o adulto é levada a organizar de maneira operatória seu próprio pensamento. Os contatos sociais da criança desempenham assim, papel de primeiríssima importância em seu desenvolvimento intelectual.[5]

Não é preciso ser construtivista ou piagetiano para concordar com essas idéias, um pouco de reflexão e de bom senso bastam. Outra piagetiana importante, Constance Kamii, também afirma que ambientes mais “democráticos”, ricos em experiências e desafios, são ideais para a inteligência infantil, e ela faz um alerta muito interessante:

Uma criança educada numa família autoritária tem muito menos oportunidades de desenvolver sua habilidade de raciocinar logicamente.[6]

O mesmo vale para as escolas: quanto mais autoritário o ambiente escolar, menos chances as crianças terão de desenvolver sua própria inteligência.

Ou seja, a medida que conseguirmos diminuir, em nossas escolas, o monopólio da atividade de “dar aulas”, e que introduzirmos processos de ensino-aprendizagem e formas de interação cada vez mais dialógicas e diversificadas, estaremos contribuindo não apenas para a construção de um país mais democrático, mas também para a formação de novas gerações mais inteligentes.

Eu acho essas idéias tão sensatas que gostaria, de forma nada democrática, que todo mundo fosse obrigado a meditar sobre elas…


Nota:

[1]  Anísio Teixeira. Educação Progressiva. São Paulo: Melhoramentos, 4ª ed., 1953, página 49.

[2] Jean Piaget. Para onde vai a educação? Rio de Janeiro: José Olympio, 1996, página 63.

[3] Jean Piaget. O juízo moral na criança. São Paulo: Summus, 1994, página 270.

[4] Idem, página 270.

 

[5] Hans Aebli, Didática psicológica. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1974, página 70.

[6] Constance Kamii. A criança  e o número.Campinas: Papirus, 1984. Página. 47.

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